“Para a história conceitual da discriminação da mulher”
– Marisa Lopes*
“Será justo, então, o réu Fernando Cortez, primário, trabalhador, sofrer pena enorme e ter a vida estragada por causa de um fato sem conseqüências, oriundo de uma falsa virgem? Afinal de contas, esta vítima, amorosa com outros rapazes, vai continuar a sê-lo. Com Cortez, assediou-o até se entregar. E o que em retribuição lhe fez Cortez? Uma cortesia...” (Pimentel, S.)
É difícil acreditar que a vítima tenha se sentido honrada com semelhante cortesia. Nem ela, nem as muitas mulheres que se tornam duplamente vítimas ao serem expostas a afrontosas decisões judiciais sobre crimes de estupro. (...) “O crime de estupro era [por que não, é?] o único no mundo em que a vítima é acusada e considerada culpada da violência praticada contra ela”. (Pimentel, S.)
O recente caso Geyse, estudante da Uniban, confirma o diagnóstico: agindo por meio do terror, a turba pseudo-universitária brada contra a estudante palavras que soariam bem aos ouvidos dos velhos insquisidores. (...)
Fanatismo (praticado por machos) capaz de produzir estultices como as que escreveu Moebius (1853 – 1907), médico e psiquiatra alemão. O livro de Moebius, Inferioridade da mulher: a deficiência mental fisiológica da mulher, que passo a expor, parte da constatação de que as faculdades intelectuais do homem e da mulher são muito diferentes. Diferença essa que pode ser relativa e, neste caso, as mulheres teriam maior capacidade para uma coisa e os homens para outra, ou absoluta, as mulheres são em sim mesmas deficientes em relação aos homens. A “sabedoria” proverbial – cabelos longos, cérebro curto – fornece compreender claramente o estado intelectual da mulher e o valor de sua deficiência intelectual para que pusessem em ação todo o seu poder para combater, em favor da humanidade, as tendências contranaturais dos/das feministas.
Trata-se então de apresentar as “provas científicas” que fundamentam suas, no plural, deficiências. Em primeiro lugar, existe uma deficiência anatômica na mulher, um retardo, diz o autor, no desenvolvimento da circunvolução do lóbulo frontal e temporal, semelhante, aliás, à encontrada nos homens pouco desenvolvidos, como os negros.
A necessidade de cuidar dos filhos é a causa da diferença entre os sexos. A eterna sabedoria não pôs ao lado do homem outro homem provido de útero [tudo indica que o autor lamente], mas outorgou à mulher de que necessita para o melhor desempenho de seus nobilíssimos deveres, embora não lhe tenha outorgado a energia mental do homem. Se se quer que ela cumpra bem seus deveres maternais, é necessário que não possua cérebro masculino, caso contrário veríamos atrofiarem os órgãos maternos. A mulher deve ser, antes de tudo, mãe amorosa e abnegada, como exige a natureza. (...) A energia e as aspirações por novos horizontes, a fantasia e a ânsia por conhecimentos novos se serviriam apenas para fazer a mulher inquieta e transtornar seus deveres maternais. (...) Ademais, quanto mais se propaga a civilização, menos se procria.
Do ponto de vista do comportamento, seu instinto a torna parecida com as bestas. Característico disso é a sua falta de opinião, a faculdade para saber diferenciar por si mesma o bem e o mal, no que depende, para isso, de uma influência extrínseca. As mulheres são rígidas, conservadoras e odeiam a novidade, a não ser nos casos em que o novo lhes traga vantagem pessoal ou quando essa novidade agrada a um amante. A lei, portanto, deve considerar a deficiência mental fisiológica da mulher e não julgá-la como a um homem. A sua incapacidade para dominar as tempestades afetivas e a falta de sentido da equidade provam que é uma grande injustiça julgar ambos os sexos igualmente.
Sua moral é a moral do sentimento, ou seja, uma inconsciente retidão. Sua coragem deve servir para defender sua prole, pois exercer esse valor em outras ocasiões só a molesta. Justiça para elas é um conceito vazio e sem sentido.
Sem escrúpulos, pode-se afirmar que a natureza deu preferência ao homem e tem demonstrado querer formar dele um tipo mais perfeito pelo fato de fazê-lo se desenvolver mais tarde do que a mulher, predileção que é evidente na medida em que permite ao homem conservar as faculdades adquiriras até o fim de sua vida. (...) Sua ampla escravidão seria a causa de sua mente ter atrofiado.
Por isso, “[...] devemos esperar toda a saúde unicamente da sabedoria do homem, pelo menos até o ponto que a intervenção humana pode alcançar; isto é, que o homem deverá dizer clara e terminantemente à mulher que não quer saber nada de liberdade incondicional. E se o homem o faz seriamente, terminará de uma vez por todas o movimento feminista”. (Moebius) Sabemos que, não tanto tempo depois, idéias como as de Moebius se tornaram dominantes na Alemanha nazista, aquela do tipo K: Kirche, Kuche, Kinder.
Deficiente, inferior, incapaz, enferma: todos esses qualificativos associados à mulher não são o produto de um delírio individual, mas de um ratio masculinizante estruturante de uma antropologia e de uma cultura que concebe a mulher como um ser inacabado e imperfeito, naturalmente inferior ao homem e incapaz para a vida social e política.
(...)
Bom, o texto continua falando das idéias sobre a incapacidade da mulher em Aristóteles, que foram as que mais prevaleceram, dentre as idéias “feministas” de outros filósofos, e que forneceram o referencial teórico para essa tendência misógina. Não consegui achar o texto na íntegra na internet, então resolvi parar por aqui para não ficar muito longo, mas acho que só as idéias desse Dr. Moebius já despertaram revolta em muita gente (espero!) e já dão bastante pano pra manga.
Resolvi não comentar para não estender o post ainda mais, vou deixar os comentários para a próxima semana!
E aí, o que vocês acham de tudo isso?!
Sigam! @omerengue




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