Eu o conheci aos 15 anos, quando ele tinha a barriga cuidadosamente polida pela capoeira. Aos 16 anos de idade, ele acabara de chegar ao Nordeste e lutava para se acostumar ao úmido litoral quente. Tinha roupas de flanela que não eram mais adequadas no seu novo lar, mas insistia em pôr uma e outra enquanto borbulhava pelos poros de calor. Ele era misterioso e apaixonante, com uma falha certeira na sobrancelha. Escrevia, desenhava bem e conseguia me deixar Eu me apaixonei perdidamente, enquanto ele fazia sexo com uma de nossas colegas e galanteava todas as garotas da minha turma. Ia me buscar sempre depois das aulas para escrevermos, ou lermos o que cada um tinha escrito. Ele me mostrava seus desenhos e eu escondia meus sentimentos. Depois lhe mostrei o seio esquerdo numa de nossas bebedeiras adolescentes. Ele me ensinou muito cedo que os homens são covardes com as palavras. Por que ele nunca disse simplesmente "eu não vou te comer" ao invés de ficar ao meu lado todos os dias da minha adolescência torturante?
Nas férias, o ritmo de nos encontrarmos depois das aulas foi extinto. E eu decidi que precisava esquecê-lo. Foi aí que comecei o meu primeiro relacionamento fixo. Não tínhamos assunto, meu namorado escrevia mal, nem sabia desenhar. Não era fascinante, mas todas as minhas amigas babavam ao vê-lo. Ele chamava atenção e eu pensava em sexo quando estava com ele. Era bem legal. O meu amigo brasiliense veio falar comigo e eu quase pude notar a putez por trás daqueles olhos castanhos, dizendo: Que tipo de cara é esse que você está ficando?
Ao invés de 1. Ele me pedir para ficar com ele e largar o namorado ou 2. Me pedir em casamento, ele se afastou de mim. Aliás nesses 15 anos de amizade, já me acostumei a essa conduta. Se estou tendo uma vida sexualmente ativa ele me abandona. Só sou sua amiga quando estou frígida. É assim, foi assim. Quando engravidei não nos falávamos, quando estive com o namorado x, y ou z ele me ignorava. Nunca pude contar-lhe "Estou feliz, ando fazendo sexo quase todo dia", ele nunca esteve lá para ouvir.
Me mudei para sua cidade, Brasília, e ele continuou na minha. Depois de vários anos ele me reencontrou na internet, numa dessas redes sociais - E olha que de social ele não tem nada. Para relembrar os velhos tempos, ele me mostrou seu pau na webcam. Foi divertido, rimos. Éramos como Fred e Wilma, Popeye e Olívia, mas sem sexo. Ele veio a Brasília logo a seguir, circulamos pela cidade sem ter para onde ir. Eu dirigia e o observava, ele tinha agora uma protuberante barriga de cerveja e usava roupas mais adequadas. Estávamos bem próximo dos 30 anos, mas continuávamos afiados em nossa cumplicidade.
Há meses atrás fui à sua cidade, quer dizer, à MINHA cidade - Ele que está enfiada nela e eu na dele. E bebemos, conversamos, brigamos, andamos, lemos, escrevemos e eu tive vontade, com os olhos lacrimejantes, de dizer "Eu te amo, você sabe, não é?". Mas tudo que fiz foi acenar antes de fechar o portão. Toda vez que penso nele, eu quase choro, mas aí lembro de rir. Quase dou uma gargalhada ao lembrar de suas provocações. De como critica sempre meus sapatos: Por que você não pode usar sapatos normais como as pessoas normais? Ou se apareço chorosa por algum fato dolorosamente doloroso, lá está ele dando seu apoio morTal: Porra, eu acho é pouco. Quem mandou (insira aqui algo que eu fiz)? ou, ainda, Você é macho ou não é? Engole o choro, porra! Reviro os olhos e ele abre a boca para mostrar os seus dentes perfeitos. A gente ri e tudo parece pateticamente patético.
Nesses últimos anos ele desenvolveu o péssimo hábito de dar em cima de mim todos os dias da sua vida, somente para ver as minhas faces rubras e as mãos inquietantes. Ainda comenta comigo sobre a bunda ou seios das minhas amigas. E quando eu reclamo, ele diz "Também adoro seus seios, mas você não me deixa pôr as mãos, o que adianta?". Vamos fazer nossa primeira viagem juntos nos nossos 30 e 31 anos. E eu estou verdadeiramente feliz com essa possibilidade.
O fato de amá-lo há 15 anos é tão somente porque nunca fizemos sexo. Trepar com ele foderia a nossa amizade (por mais que essa frase seja de uma contradição galopante).
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